Quinta-feira, Junho 18, 2009
A despedida
Era uma vez um estendal.
O mesmo estendal de há uns poemas atrás,
A mesma brincadeira, mas menos malandra.
O verão a bater à porta, silencioso, mas voraz.
A cerveja saiu da mesa, emigrou.
Já não sabe em quem votar.
Vai bêbeda e torta a bater nas portas,
Louca de ódio nos beiços, a espumar.
É Dr. Whisky para acolá e Dona Cerveja para aqui.
A cerveja ainda confusa sobre o amor e o voto
A contar as malfeitorias e brindes do partido,
Enquanto o Doutor mostra-se, de lacinho, um devoto.
Vão à janela e são iguais.
Olham para a rua a atirar bolas de papel.
Têm saudades e ainda não chegaram ao fundo do copo.
Sobem a escadaria, mas vão presos a um cordel.
O mesmo estendal de há uns poemas atrás,
A mesma brincadeira, mas menos malandra.
O verão a bater à porta, silencioso, mas voraz.
A cerveja saiu da mesa, emigrou.
Já não sabe em quem votar.
Vai bêbeda e torta a bater nas portas,
Louca de ódio nos beiços, a espumar.
É Dr. Whisky para acolá e Dona Cerveja para aqui.
A cerveja ainda confusa sobre o amor e o voto
A contar as malfeitorias e brindes do partido,
Enquanto o Doutor mostra-se, de lacinho, um devoto.
Vão à janela e são iguais.
Olham para a rua a atirar bolas de papel.
Têm saudades e ainda não chegaram ao fundo do copo.
Sobem a escadaria, mas vão presos a um cordel.
Quarta-feira, Abril 29, 2009
Passa o Porto, pelo Porto passa
O André subiu ao eléctrico
E nadou metropolitano fora.
Do comboio, viu subir os quilómetros
No ponteiro que contava as horas.
Passou estrada, leu-a em diagonal
E a vontade de encarrilar não foi embora.
Da janela do comboio, do autocarro ou do automóvel,
O ecrã era um rebuçado de alcatrão.
E o André fugiu com as pestanas bem pregadas
Umas às outras, a agarrar-se ao safanão
Que sentia numa estrada sempre a eito
A afastar-se do sono da multidão.
Passam, passam quilómetros
E nada de André a dar pelas cidades.
Placas de Coimbra, Aveiro e Espinho
E a chuva a dizer-lhe barbaridades.
Ao ouvido: «Não é por aí, não é por aí!»
Um pé na metrópole e outro nos arrabaldes.
Era estrada, estrada, estrada.
Linha contínua, linha a continuar,
Linha a entreter as outras linhas
Enquanto o carro queria ultrapassar.
Fios eléctricos dispostos em rede
E um lugar sempre por chegar.
Cinco zeros de quilómetros na cabeça
A tresloucar os números dos ponteiros.
E a ponte cruzou o André em linha recta.
Bilhetes de ida e volta, de criança, inteiros
Nas mãos de maçãs a morder viagens,
Nas mãos de viagens a contar cordeiros.
Olhos abertos de testa em testa.
André salta do eléctrico em sobressalto e grita:
«Chegamos ao Porto, senhores passageiros!»´
E nadou metropolitano fora.
Do comboio, viu subir os quilómetros
No ponteiro que contava as horas.
Passou estrada, leu-a em diagonal
E a vontade de encarrilar não foi embora.
Da janela do comboio, do autocarro ou do automóvel,
O ecrã era um rebuçado de alcatrão.
E o André fugiu com as pestanas bem pregadas
Umas às outras, a agarrar-se ao safanão
Que sentia numa estrada sempre a eito
A afastar-se do sono da multidão.
Passam, passam quilómetros
E nada de André a dar pelas cidades.
Placas de Coimbra, Aveiro e Espinho
E a chuva a dizer-lhe barbaridades.
Ao ouvido: «Não é por aí, não é por aí!»
Um pé na metrópole e outro nos arrabaldes.
Era estrada, estrada, estrada.
Linha contínua, linha a continuar,
Linha a entreter as outras linhas
Enquanto o carro queria ultrapassar.
Fios eléctricos dispostos em rede
E um lugar sempre por chegar.
Cinco zeros de quilómetros na cabeça
A tresloucar os números dos ponteiros.
E a ponte cruzou o André em linha recta.
Bilhetes de ida e volta, de criança, inteiros
Nas mãos de maçãs a morder viagens,
Nas mãos de viagens a contar cordeiros.
Olhos abertos de testa em testa.
André salta do eléctrico em sobressalto e grita:
«Chegamos ao Porto, senhores passageiros!»´
Quinta-feira, Abril 02, 2009
...
Before that, change the future. Change the streets, change discussion, change a lamp, change the readings, the listenings, the dreams that follow something unknown.
Terça-feira, Fevereiro 03, 2009
Milk para os mais conservadores
Falamos de um filme, duas épocas. Harvey Milk é a personagem escolhida por Gus Van Sant para mostrar que, em 30 anos de calendário, as histórias passadas ainda se poderiam prender aos argumentos do século XXI.
Milk não é apenas uma longa-metragem política. Não é, também, um conjunto de fotografias em movimento a apelar à emoção. Houve quem o visse, na crítica cinematográfica, como um filme convencional, com um narrador quase-morto às costas de cada cena. Mas a opção por trechos de realidade (imagens de arquivo reunidas por Gus Van Sant que mostram pedaços da história do primeiro político assumidamente gay nos Estados Unidos) misturadas com a ficção dá-lhe o carácter bruto de história que não quer apenas - mas também - comover, como, ao mesmo tempo, catapultar-nos para um problema social que ainda persiste - o da discriminação de homossexuais. E de forma simples, sem presunções ou moralismos.
O mais recente filme do realizador homossexual norte-americano retrata a luta de Harvey Milk pela iguldade de direitos civis entre os homossexuais depois de se ter tornado o mayor da Castro Street, depois da gerência de uma loja de máquinas fotográficas, depois de ter trocado Nova Iorque por São Francisco e após a transformação de gay não assumido em revolucionário. Mas é uma história real, a de Harvey Milk, que, nos anos 80, era Harvey Milk e, em 2008, "é" Sean Penn, já que se torna quase impossível separar o personagem do actor.
O filme gira em torno do problema ainda vivido por muitos homossexuais, em todo o mundo, mas não é restrito, não um filme gay, sequer. Milk é, na verdade, uma história para todos e que não parte de Gus Van Sant como um pedaço de prosa que rouba para reivindicar ideias e colá-las na sua biografia. Não é um pedaço de Woody Allen a desabafar para a tela. É um filme com força, mas que não usa a força para ir contra o preconceito e, mesmo assim, consegue fazê-lo.
Milk não é apenas uma longa-metragem política. Não é, também, um conjunto de fotografias em movimento a apelar à emoção. Houve quem o visse, na crítica cinematográfica, como um filme convencional, com um narrador quase-morto às costas de cada cena. Mas a opção por trechos de realidade (imagens de arquivo reunidas por Gus Van Sant que mostram pedaços da história do primeiro político assumidamente gay nos Estados Unidos) misturadas com a ficção dá-lhe o carácter bruto de história que não quer apenas - mas também - comover, como, ao mesmo tempo, catapultar-nos para um problema social que ainda persiste - o da discriminação de homossexuais. E de forma simples, sem presunções ou moralismos.
O mais recente filme do realizador homossexual norte-americano retrata a luta de Harvey Milk pela iguldade de direitos civis entre os homossexuais depois de se ter tornado o mayor da Castro Street, depois da gerência de uma loja de máquinas fotográficas, depois de ter trocado Nova Iorque por São Francisco e após a transformação de gay não assumido em revolucionário. Mas é uma história real, a de Harvey Milk, que, nos anos 80, era Harvey Milk e, em 2008, "é" Sean Penn, já que se torna quase impossível separar o personagem do actor.
O filme gira em torno do problema ainda vivido por muitos homossexuais, em todo o mundo, mas não é restrito, não um filme gay, sequer. Milk é, na verdade, uma história para todos e que não parte de Gus Van Sant como um pedaço de prosa que rouba para reivindicar ideias e colá-las na sua biografia. Não é um pedaço de Woody Allen a desabafar para a tela. É um filme com força, mas que não usa a força para ir contra o preconceito e, mesmo assim, consegue fazê-lo.
Segunda-feira, Novembro 17, 2008
Fuga do poço, como posso
se de um poço cresce um fosso
entre o homem e o ar,
- que do escuro foge louco
com a distância ao poço a aumentar -,
eu fujo e corro pouco
mas terei de aguentar.
sigo o turvo desse poço
e procuro um alguidar.
buscar água p'ra fugir,
uvas p'ra me embebedar.
o mocho voa longe
e eu sem fios p'ra saltar
de um retiro de monge.
o monge num lagar
(a vindimar segredos, a vindimar!
e eles a fermentar.
a dar em sonhos trôpegos engasgados).
e eu ali a fermentar, ao pé do poço,
mas com um pé no ar, um pé no ar!
monge rápido a afundar,
que eu nem o posso salvar,
porque estou com um pé no ar
e ele desliza no poço
até, enfim, se misturar
com a água lá em baixo.
e eu em cima, aqui, no ar.
entre o homem e o ar,
- que do escuro foge louco
com a distância ao poço a aumentar -,
eu fujo e corro pouco
mas terei de aguentar.
sigo o turvo desse poço
e procuro um alguidar.
buscar água p'ra fugir,
uvas p'ra me embebedar.
o mocho voa longe
e eu sem fios p'ra saltar
de um retiro de monge.
o monge num lagar
(a vindimar segredos, a vindimar!
e eles a fermentar.
a dar em sonhos trôpegos engasgados).
e eu ali a fermentar, ao pé do poço,
mas com um pé no ar, um pé no ar!
monge rápido a afundar,
que eu nem o posso salvar,
porque estou com um pé no ar
e ele desliza no poço
até, enfim, se misturar
com a água lá em baixo.
e eu em cima, aqui, no ar.
Terça-feira, Outubro 28, 2008
Perlimpimpim
Vi a Paula Rego a dizer «perlimpimpim». Eu não costumo dizê-lo, que já não tenho idade para essas coisas. Ela tem 73 anos... Sempre foi mais velha do que eu... Então, pergunto o que é a idade.
Os pés a incomodar de já não caberem dentro da cama e nós a encolhermo-nos como se o frio existisse às 3h da tarde de um dia de verão. Não é assim?
O relógio a tilintar no seu tic-tac de anos e nós a vermos o tic-tac a acelerar, com a impressão de que, realmente, o mundo todo gira ao contrário, como no café British, no filme «Na cidade branca», construído nos anos 80 por Alain Tanner, ou como no British depois de descer a Rua do Alecrim, em 2008. Um relógio na parede a girar ao contrário ou mundo cá fora às avessas com os ponteiros?
E tantas vezes o tempo parece parado... parado... parado... (E pumba! Parou outra vez!)
Um relógio a girar ao contrário ou nós às avessas com uma biologia chatinha de macaco consciente?
O que acontece quando se diz perlimpimpim? Vai-se embora, a consciência?
Os pés a incomodar de já não caberem dentro da cama e nós a encolhermo-nos como se o frio existisse às 3h da tarde de um dia de verão. Não é assim?
O relógio a tilintar no seu tic-tac de anos e nós a vermos o tic-tac a acelerar, com a impressão de que, realmente, o mundo todo gira ao contrário, como no café British, no filme «Na cidade branca», construído nos anos 80 por Alain Tanner, ou como no British depois de descer a Rua do Alecrim, em 2008. Um relógio na parede a girar ao contrário ou mundo cá fora às avessas com os ponteiros?
E tantas vezes o tempo parece parado... parado... parado... (E pumba! Parou outra vez!)
Um relógio a girar ao contrário ou nós às avessas com uma biologia chatinha de macaco consciente?
O que acontece quando se diz perlimpimpim? Vai-se embora, a consciência?
Terça-feira, Setembro 09, 2008
Pátio de granito musicado
E passeava no jardim, lá de cima, a olhar para as esplanadas no rés-do-chão da cidade. O bilhete de avião no bolso e um pássaro na mão. E dava passos em falso e em verdadeiro, em verdadeiro e em falso, com o bilhete de avião na mão.
E enrolava tabaco de canto em canto, em feiras de pimentos, maçãs e vestidos; em feiras de quinquilharia, também. Objectiva na mão e um copo branco à espera. À espera de um pouco de água, de um pouco de ar a torná-lo importante, elegante, imponente. Música aos folhos debruçada em raios de luz a vir do tecto. Bola de cristais gigante a espelhar cigarros e páginas rasgadas de palavras em língua estranha, mas igual.
Passos largos que não cansam, que não fazem espremer o sobrolho. Asas de avião e um bilhete na mão. Sempre na mão e nunca na mala (onde está colada uma etiqueta falsa).
E um candeeiro falava, falava, falava. E eu era Evaristo, mas não falava português, não pisava calçadas e fingia tocar harmónica com o meu bilhete de avião.
E enrolava tabaco de canto em canto, em feiras de pimentos, maçãs e vestidos; em feiras de quinquilharia, também. Objectiva na mão e um copo branco à espera. À espera de um pouco de água, de um pouco de ar a torná-lo importante, elegante, imponente. Música aos folhos debruçada em raios de luz a vir do tecto. Bola de cristais gigante a espelhar cigarros e páginas rasgadas de palavras em língua estranha, mas igual.
Passos largos que não cansam, que não fazem espremer o sobrolho. Asas de avião e um bilhete na mão. Sempre na mão e nunca na mala (onde está colada uma etiqueta falsa).
E um candeeiro falava, falava, falava. E eu era Evaristo, mas não falava português, não pisava calçadas e fingia tocar harmónica com o meu bilhete de avião.